Saturday, September 02, 2006

Fúcsia III

Síntese de todas as perdas

Naquele final de semana sabia que ia perder o namorado. Quando ele entrou naquele carro vermelho ela já sabia. Colocou seu rosto entre suas mãos, mirou-lhe os olhos castanhos e proclamou que o amava. Tarde demais.
Na segunda-feira chamaram-na no departamento de pessoal, ao entrar naquela sala de paredes acinzentadas sentiu o estômago congelar e a notícia foi dada da maneira mais fria possível. Perdeu o emprego.
Arrasada não conseguia nem sentir o chão. Perdeu o ônibus porque não conseguiu esticar o braço e acenar. Já em casa, deitou-se no sofá e ligou a televisão. Perdeu 8 noites, 7 dias, várias ligações telefônicas, 5 quilos e muitos, muitos litros de choro.
Resolveu então ir a um shopping, ver pessoas, comprar alguma coisa, beber um drink no bistrô ao lado, talvez perder algum dinheiro no bingo...
Colocou um vestido azul, maquiou-se em tons rosados, não queria chamar atenção, apenas esconder as olheiras e sua palidez.Chamou um táxi. Já tinha certeza que perderia o ônibus.
Chegando lá aos primeiros 10 passos sentiu-se tonta, não deu muita bola, estava há muitos dias se alimentando mal, mais 10 passos e teve que sentar. Estava completamente bege. O banco ficava em frente a uma loja com uma iluminação forte alaranjada que a deixou mais tonta. Sentiu então uma pontada na altura do ventre.
Notou que as pessoas começaram a observá-la, olhou-se e percebeu a mancha fúcsia em seu vestido. Populares correram e chamaram uma ambulância. Ela não conseguiu reagir a nada, a cabeça pesada, a língua travada, desacordou.
No hospital acordou com o branco das luzes em uma sala de cirurgias. Ouviu de um enfermeiro “lamentamos muito senhora, seu bebê pereceu”. Não conseguiu responder nada, perguntar nada. Havia perdido todos os sentidos, sentia-se inerte, praticamente transparente.
Na confusão perdeu o celular, sua memória também se perdera por alguns momentos, não lembrava o telefone de nenhum cristão para lhe ajudar, então resolveu sair do hospital caminhando, sozinha, sem avisar ninguém, rua afora em uma noite muito negra. Não tinha medo, já não tinha mais medos, perdera-os. Já não era mais dor, nem sofrimento. Havia um sentimento combustível para seguir adiante, algo inexplicável para alguns, ilusório para outros e concreto para ela: a esperança que estava impressa no verde de seus olhos.

Monday, August 28, 2006

Fúcia II

Fúcsia


Meu espírito compreende uma anarquia
de anseios e de tons inconcebíveis;
que ainda eu os entenda compatíveis
ao vigor de minha poesia,

não os como, não os bebo, não os vivo,
não os quero no recôndito do peito:
a quietude e o sossego do meu leito,
concretizam-se em meu caráter defensivo.

Eu não quero as conquistas sobre-humanas,
já me basta a apreensão quotidiana
de viver num mundo escuro.

Eu procuro um matiz que repouse em harmonia
no encanto, na saúde dessa rica covardia
que, aos poucos, em minh’alma eu costuro.


Fabrício Peixoto

Fúcsia I

ECO – escritores do clube oculto

Leandro Coimbra

Me*convidaram gentilmente para participar de um clube secreto de escritores. Poucas coisas no mundo, depois do fotolog e dos atores, me soam mais egocêntricas do que clubes de escritores. É uma das maiores desculpas que conheço para se exercitar o convencimento e a gabolice. Uma verdadeira convenção de alter-egos bem sucedidos e convictos de que são bons, mais ainda, são os melhores, além, é claro, de humildes e diplomáticos – quer dizer, cínicos.
Como o clube – ECO – é secreto, tenho um pouco de dificuldade de participar das reuniões, pois não são divulgados os locais de encontro, justamente para que se mantenha o cunho de coisa secreta. Todo o mês recebo uma carta. Nela diz a data da reunião. Só. O clube é secreto. A carta não vem selada, ou seja, não é entregue pelo correio e sim por alguém do clube. Esse alguém, obviamente, é secreto, porque nunca o vejo. Uma vez eu e mais três amigos fizemos vigília na varanda, depois de ver se tinha algo na caixa do correio, não tinha. Um a cada seis horas, durante uns quatro dias a fio. Exatamente no tempo em que costuma chegar a carta. Não apareceu ninguém. Então, no final da vigília fomos até a caixa. A carta estava lá.
Se entreolharam:
- ...? – disse um.
- ...? ...? – disse outro.
O terceiro e eu ficamos com o queixo caído, o beiços inferiores dependurados, os olhos em meia-pálpebra (ou de peixe-morto, como quiser).
A carta estava lá.
Quem a entregou? Não se viu.
Os outros, como não sabiam do que se tratava e nem podiam, pois era uma correspondência do clube secreto de escritores, foram embora. Abri a carta. Nela lia-se a data do próximo encontro e, abaixo, o seguinte:
Tema: Fúcsia.
Ótimo! Novamente eu não sabia o lugar do encontro, mas tinha um tema sobre o qual discorrer. Muito bem. Sentei em frente ao computador. E nada. Tomei uma xícara de café. Nada. Tomei uma térmica de café e nada. Fui dormir, porque pensei que talvez eu pudesse sonhar com a Fúcsia. Acordei no meio da madrugada, sentei em frente ao computador... dicionário! É claro! Desde que aprendi o significado das palavras ortodoxo, empírico, epistemológico, cânone, paradoxo, dogma e grilhão achei que tinha me tornado auto-suficiente lexicalmente. Criei até um provérbio milenar – se não é vai ser um dia – que diz que “Mulher tem que parar de confundir grelo com grilhão”. Normalmente as pessoas não entendem, mas mesmo assim me sinto orgulhoso com a analogia e fico rindo como um retardado. Minha falta de convívio com o dicionário, portanto, fez com que eu o extraviasse. De repente me deparei com um dilema: eu não sabia o que era Fúcsia. O encontro era amanhã.
Motivado por um escritorzinho gaúcho menor, pensei em brincar com o som da palavra. Fúcsia é a pronúncia que os imigrantes alemães atribuem ao Fusca, “nóis fai ca Fúcsia e os Schultz fão ca kombda uma feiz”. Não gostei. Não estava convencendo nem a mim, que dirá aos outros. Pensei em colocar a palavra naquele xingamento tradicional “Ah! Vai pra Fúcsia-que-te-pariu”. Fúcsia poderia ser a capital de um país do leste europeu que não existe, como a República Esbratska ou a Chilovênia. Fiquei imaginando os noticiários: o encontro do conselho de segurança da ONU ocorrerá em Fúcsia, na Chilovênia. Depois de Oslo, na Noruega, a convenção secreta do ECO será realizada em Fúcsia, na Repúplica Esbratska, as palestras acontecerão no histórico teatro elíptico nacional. Poderia também ser um nome feminino da Rússia, outro noticiário: a escritora russa Fúcsia Ivanovna foi assassinada quando se deslocava para uma entrevista em que falaria sobre o ECO, o clube oculto de escritores.
O tempo passava, apesar das idéias a Fúcsia não ia pro papel. Mas que saco, escrever com tema é coisa de concurso de poesia do 1o grau: Concurso de Poesia; tema, Meio ambiente; premiação, um passeio na expointer. É brabo! Se eu soubesse quem é o responsável pelo clube eu o mandaria tomar no cu. “Tomá no teu cu!” – e sairia porta a fora, indignado e cheio de razão, apesar de ser o único, talvez, incapaz de escrever sobre a Fúcsia. Admitir o fracasso? Nunca. O fracassado que se admite fracassa em dobro. “ECO – escritores cornos e otários!” – gritei. “Se eu ao menos soubesse onde encontrá-los vocês iam ver, seus merdas”!!! – gritei assim, com três pontos de exclamação.
O cachorro latiu! Fui ver, uma carta na caixa de correio. Era do clube. Trazia consigo um charuto e um isqueiro e a frase “Deguste dentro de casa”. Um barulho: era a porta da frente batendo, na certa pelo vento que entra pela cozinha, o famoso vento cozinheste. Pois bem, embora eu não fumasse, gostei da gentileza. O cachorro me entreteve na rua por uns longos minutos. Latia, corria, lambia, me fez atirar gravetos longe para que ele me trouxesse de volta. De repente parou, deliberadamente. Passou uma kombi com vidros fumê atrás da qual ele saiu correndo e latindo – um cachorro ortodoxo – dobraram a esquina. Entrei em casa. Caminhei até a porta da cozinha. Em câmera lenta, subi o charuto à boca, subi o isqueiro, enquanto pensava...
... eu não tenho cachorro...
... eu não desenrosquei a válvula do gás...
No entanto, mal acabei as constatações, já tinha batido a pedra do isqueiro.
Pude conhecer, pessoalmente, Fúcsia Ivanovna, no purgatório.

*Sei que não se começa frase com pronome oblíquo átono, mas eu nem tô.

Thursday, August 24, 2006

Literatos da Aldeia na rede



Este espaço virtual literarizante poeteiro circunferencial estésico das letras metropolitanas está aberto para solilóquios escrivados nas almas vâs que vagam na vaga do tempo sem rima.
Em breve, muitos textos...